sexta-feira, 21 de agosto de 2015

Batalha Naval - 83 anos, o principal fato histórico de Itacoatiara/AM





Batalha Naval de Itacoatiara




Em 24 de agosto de 1932, na frente da cidade de Itacoatiara, no Amazonas, aconteceu a célebre BatalhaNaval de Itacoatiara envolvendo os navios Ingá e Baependí dos legalistas da constitucionalista de São Paulo.
Os legalistas saíram da capital do Amazonas,Manaus, para defender Itacoatiara, que defendia também a permanência do Presidente Vargas no poder.
Os navios Jaguaribe e Andirá estavam sob o comando dos rebeldes,que queriam a saída do presidente Eles vinham de Óbidos,Pará, com a finalidade de tomar o Amazonas. Já haviam rendido a cidade de Parintins e o próximo alvo seria Itacoatiara e depois Manaus.
Os rebeldes chegaram no porto atirando contra a cidade. Foram construídas trincheiras às margens do Rio Amazonas para se promover a defesa do município.O então prefeito Major Gonzaga Pinheiro e o Padre Pereira foram à bordo do navio dos revoltosos e taticamente negociaram a rendição da cidade. Na realidade estavam ganhando tempo no aguardo da chegada dos navios Ingá e Baependí para tirarem os moradores da Velha Serpa do sufoco.

Pintura a óleo sobre tela da Batalha Naval de Itacoatiara, de minha propriedade particular, feita pelo artista plástico Teo Braga. Que representa o momento em que o Ingá atingiu  o meio do casco do Jaguaribe o pondo ao fundo no meio do Rio Amazonas, em frente a cidade de Itacoatiara.

Os navios aliados investiram bravamente sobre os revoltosos, partindo o Jaguaribe e o Andirá ao meio. Muitos moradores se afugentaram para o Lago de Serpa e outros se embrenharam na selva esperando o desenrolar da situação.(Frank Chaves)


Na verdade, os historiadores amazônicos costumam aprofundar temas metropolitanos (passados em Belém e Manaus) em detrimento dos relacionados ao interior da região. É incompreensível a teimosia das universidades oficiais UFAM e UEA em não fazer incluir na grade curricular do seu Curso de História o tema Batalha Naval de Itacoatiara. Mas, lá está inserido o Bombardeio de Manaus. Por que o preconceito? No Bombardeio de Manaus houve (se tanto) duas ou três vítimas fatais. No evento de Itacoatiara, além dos dois navios revoltosos (Jaguaribe e Andirá) fundeados defronte à cidade, morreram cerca de quarenta pessoas e quase duas dezenas de feridos foram trazidos para internação na Santa Casa de Misericórdia de Manaus. Os líderes da revolta foram presos e julgados por um Conselho de Guerra instalado à época em Belém!

Queiram ou não queiram os preconceituosos, o episódio histórico da Batalha Naval de Itacoatiara está umbilicalmente ligado à revolução constitucionalista que eclodiu em São Paulo, em 1932, orientada e presidida pelo movimento tenentista que exigiu do presidente Getúlio Vargas a redemocratização do Brasil. A sublevação estendeu-se à Amazônia, começando com o levante de 19 de agosto daquele ano na cidade paraense de Óbidos.

O passo seguinte dos revolucionários foi apreender os vapores Jaguaribe, pertencente à empresa Pereira Carneiro & Cia, e Andirá, da inglesa Amazon River. Ambos, armados em guerra com canhões Krup, de 75 mm., metralhadoras, fuzis e farta munição, acompanhados de duas lanchas, subiram o Rio Amazonas: tencionavam ocupar Manaus e depor o governador do Estado do Amazonas. Porém, a tentativa dos revoltosos, sob o comando de Alderico Pompo de Oliveira fazendo causa comum com os insurretos paulistas teve seu desfecho em 24 de agosto com a vitória da frota legalista em frente à cidade de Itacoatiara, onde – repita-se – estão fundeados os vapores Jaguaribe e Andirá, abalroados pelos navios Baependi e Ingá. E se assim não tivesse acontecido, a cidade de Manaus certamente teria sido atingida – como o foi Parintins, ocupada e saqueada pelos revoltosos – trazendo graves consequências para o comando da legalidade…

A Batalha Naval de Itacoatiara, a única do gênero, no século 20, na América Latina, precisa ser estudada em profundidade e mais divulgada.

Respaldados em textos retirados da segunda edição de meu livro “Itacoatiara. Roteiro de uma cidade” (1997), relembremos que:
Decorridos quase dois anos da posse de Getúlio Dornelles Vargas, em 1930, e não manifestando interesse em constitucionalizar o País, o governo e o povo de São Paulo em julho de 1932 se levantaram em armas, sendo esse movimento conhecido como Revolução Constitucionalista.
A revolta paulista está inserida no chamado movimento tenentista que se estendeu à Amazônia, através do levante militar da fortaleza de Óbidos, Pará.
Ao lado da revolução de 23 de julho de 1924, em Manaus, a Batalha Naval de Itacoatiara, acontecida em 24 de agosto de 1932, se insere no rol dos movimentos tenentistas que ocorreram em todo o País.
A revolução de 1924 começou em Manaus, seguiu em direção a Belém e chegou a ocupar o forte de Óbidos, onde foi debelada por tropas federais.
Em sentido inverso, a de 1932, pretendendo ocupar Manaus, começou em Óbidos e terminou em Itacoatiara.
Governava o Estado do Amazonas, à época, o tenente Antônio Rogério Coimbra, nomeado interventor federal em 5 de agosto de 1931. Seu governo expirou em 10 de outubro de 1933.
Ausente de Manaus o interventor titular, em agosto de 1932 estava interinamente à frente do governo o secretário-geral do Estado Waldemar Pedrosa (mais tarde homenageado pela Prefeitura de Itacoatiara com a aposição de seu nome à rua que margeia a cidade).
As forças navais de defesa, comandadas pelo capitão-de-fragata Nelson Lemos Basto, então capitão dos portos do Amazonas, compunham-se de uma flotilha de cinco vapores: Baependi e Ingá, do Loide Brasileiro, Rio Curuçá, Rio Aripuanã e Rio Jamari, da Amazon River, além da lancha Íris.
A guarnição de terra, em Itacoatiara, esteve sob a direção do primeiro tenente Álvaro Francisco de Souza, auxiliado pelo tenente Albuquerque, ambos do 27º Batalhão de Caçadores. A eles foram incorporados o prefeito Gonzaga Tavares Pinheiro, o tenente Francisco Júlio e dezenas de civis, habitantes de Itacoatiara. Da defesa da cidade também participaram elementos da Guarda Civil do Amazonas, comandadas pelo capitão Jonathas Correia. Aos cerca de cem praças e voluntários foram distribuídas armas e munições. Trincheiras foram abertas ao longo das ruas da orla, do centro ao Jauari.
Exercia o cargo de prefeito municipal o capitão Gonzaga Tavares Pinheiro, nomeado por Ato da Interventoria Federal do Amazonas nº 1.150, de 2 de dezembro de 1931. Exonerado do posto em 26 de fevereiro de 1935.
Ele nasceu em Porteiras, Estado do Ceará, aos 8 de dezembro de 1890.
Era filho de Joaquim Tavares Pinheiro e dona Eglantina Pinheiro.
Foi efetivado, por ato de heroísmo e bravura na Batalha Naval de Itacoatiara, no posto de capitão da extinta Força Policial do Estado (atual Policia Militar), em face do Ato Estadual nº 1,791, de 13 de outubro de 1932.
Promovido, por merecimento, ao posto de tenente-coronel da Força Policial, pelo decreto de 1º de agosto de 1946.
Reformado no posto de coronel da Polícia Militar do Estado, por decreto de 23 de janeiro de 1951.
Faleceu em Fortaleza, às 23:40 horas do dia 22 de fevereiro de 1978.

O depoimento do coronel Gonzaga Tavares Pinheiro a respeito da Batalha Naval de Itacoatiara acha-se arquivado no Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas.

O evento – além de constar dos livros de minha autoria “Itacoatiara. Roteiro de uma cidade” (primeira edição), Manaus, 1965, páginas 73 a 79; “Itacoatiara. Roteiro de uma cidade” (2ª edição), Manaus, 1997, páginas 192 a 204; e “Cronografia de Itacoatiara”, 2º volume, Manaus, 1998 – está referenciado nas obras “Itacoatiara, estudo social, político, geográfico e descritivo”, de Manoel Anísio Jobim, Manaus, 1948, “Outras histórias do Amazonas”, de Antonio Cantanhede, Manaus, 1958, e “Tempos de Esperança”, de Antonio Souto Loureiro, Manaus, 1995.

Habilitem-se, senhores pesquisadores, estudiosos e estudantes de nível universitário, pretendentes a elaborar monografias e teses. O tema Batalha Naval é empolgante e muito diz da grandeza de nossa história e da corajosa trajetória do povo de Itacoatiara.
Honra e glória ao passado. Parabéns ao laborioso povo de Itacoatiara…
(Francisco Gomes - Itacoatiara roteiro de uma cidade)


“A revolta tende a alastrar-se como uma furunculose. Rebela-se o Forte de Óbidos no Amazonas”. Afinal, era a “primeira manifestação efetiva de apoio à causa constitucionalista no Norte, após 50 dias de combate”, como Walter observa.
No entanto, como em 24, novamente foi fácil controlar a rebelião. Só havia uma saída para os amotinados, pelo rio. Eles não passavam de duas centenas de homens “mal armados e sem nenhuma embarcação para deslocamento”. Foi o “único combate naval dos 64 registrados durante a Revolução Constitucionalista”. A “batalha de Itacoatiara” foi, porém, desigual: do outro lado estava a flotilha do 27o BC, formada por seis navios, com 230 homens, mais bem armados”. Houve mortes., em número até hoje não apurado com precisão.

A BATALHA DE ITACOATIARA - Seis dias depois de iniciada a Revolta Constitucionalista no Baixo Amazonas, aconteceu a Batalha Naval de Itacoatiara, que encerrou o movimento rebelde e fez muitas vítimas. Por volta das 12 horas do dia 24 de agosto de 1932, há 83 anos, deu-se a batalha em frente a cidade de Itacoatiara. Não duraria mais que 45 minutos, tendo sido abreviada pelo abalroamento dos navios rebeldes (Andirá e Jaguaribe) por navios do 27º Batalhão do Exército (Ingá e Baependi). Navios mercantes foram improvisados como vasos de guerra pelas tropas inimigas. Os do Exército eram maiores e levaram ampla vantagem no combate. Para quem ousou reduzir a revolta Constitucionalista à mera bravata sem menor chance de sucesso, como o fez o historiador Carlos Rocque, refuto com a palavra abalizada do historiador amazonense Antonio Loureiro: "Não fosse a coincidência de estarem em nossas águas os navios mercantes Ingá e Baependi, Manaus teria sido bombardeada e talvez tomada". Loureiro observou que Manaus estava bastante exposta pois não dispunha de flotilha em suas águas.
No livro "1932: a Revolução Constitucionalista no Baixo Amazonas" busco ampliar a discussão sobre o episódio, muito bem narrado, aliás, pela pena do escritor Ildefonso Guimarães, no romance "Os dias recurvos". 
Em 2014, o historiador Márcio Couto Henrique, professor da UFPA, encontrou em São Paulo, um desenho feito pelo artista plástico Theodoro Braga, sobre a batalha de Itacoatiara, elaborado a partir de um croqui rascunhado por uma testemunha da guerra, o imediato Carepa. É este desenho que publico aqui.

(Walter Pinto“1932: A Revolução Constitucionalista no Baixo Amazonas”)



A gente comia tranquilo, porque tudo tava dando certo a nosso favor. Pela madrugada, já tínhamos posto pra correr o “Baependy” e um outro navio, do qual não me lembro o nome, que vinha com ele, atracado no costado. Quanto a Itacoatiara, o nosso comando tava só vendo a hora de acabar com a tesão de mijo do tal Tenente de terra, quando os nossos “75” começassem a vomitar umas duas dúzias de lanternetas em riba deles.


Pois é, então nós estávamos almoçando descansados quando o pau cantou lá de terra: pum... pá – pu pururu... pum... pum; era tiro de fuzil, de metralhadora, creio que até de espingarda. Aí foi que nós – a soldadesca de bordo do “Andirá” – viemos saber que tinha tropa aquartelada em Itacoatiara. Nós não sabíamos, porque os sargentos do Vinte Sete tinham deixado de se comunicar com o nosso comando pelo rádio, é que a essa altura eles já estavam todos presos e a gente não sabia; estávamos ali “comendo merda numa bolsa”, como se dizia na gíria do quartel, naquele tempo. Fomos pegados de surpresa, meu mano; pelo menos nós, a raia miúda, que viera p’ra servir de bucha naquela guerra maluca, inventada por um sujeito completamente biruta.

Pois bem; aí, quando a tropa de terra começou a atirar contra nós, era porque eles já tinham comunicação de que os navios deles estavam palmo em cima. Então, quando o pau cantou, foi uma confusão dos diabos a bordo do “Andirá”: era gente se espalhando pra tudo quanto é lado, correndo no rumo dos fuzis ensarilhados (armas agrupadas e presas umas às outras pela parte superior) no convés e derrubando tudo. Um rebuliço (confusão) danado, cada um pegando a arma que estivesse mais perto, sem dar tempo de saber aquela de quem era pela numeração; um corre-corre que vou te contar!

Foi aí, enquanto a gente respondia atordoado ao fogo de terra, que os dois paquetes surgiram na boca do rio. Eram ambos do Loydd; um a gente já sabia que era o “Baependy”, o outro a gente soube depois que se tratava do cargueiro “Ingá”. Pois bem; quando os dois apontaram na entrada do rio, vinham a todo vapor em nossa direção; o nosso melhor artilheiro, o Sargento Martins, procurou assestar sobre eles a mira dos canhões. Mas aí é que os manobristas daquela guerra de ratos contra gatos foram descobrir uma coisa simples que nunca tinha passado por suas cabeças cheias de estrume de vaca: era impossível apontar para a linha-d’água dos navios inimigos, por causa de que a amurada do “Jaguaribe”, por se tratar de um cargueiro, era muito alta e não dava campo para alvo dos canhões abaixo da metade do costado das embarcações contrárias!

Assim mesmo, enquanto houve distância suficiente, os nossos “75” ficaram cuspindo fogo em cima dos dois. A gente, de bordo do “Andirá”, podia ver perfeitamente as explosões das granadas, espocando como ovo na frigideira. No princípio, aquele clarãozão de cegar olhos, mudando logo de cor para um encarnado de urucu que depois ficava amarelo cor de laranja. – Mas os dois continuaram a avançar em nossa direção. A essas alturas, tanto o “Jaguaribe” como o “Andirá” já tinham levantado ferro e manobravam para evitar as investidas do inimigo que – pelo que se via – parecia trazer, como diz o outro, o corpo fechado p’ra bala de canhão. Ou então era mesmo a ruindade de mira de nossos artilheiros que não entendiam pirocas de combate naval.

De toda aquela munição dispersada na água, apenas uma granada acertou em cheio na proa do “Ingá”, que avançava sobre o “Jaguaribe”, fazendo um baita d’um rombo que, se fosse na linha d’água, tinha metido ele no fundo com casca e noz. Mas foi só esse tiro. O resto, ora passava por cima, ou se perdia nos barrancos. Teve até um que foi atingir uma serraria do outro lado do rio, um nadinha acima de Itacoatiara.

Aos poucos, eles foram se aproximando. Da curva do rio onde eles apareceram, até confronte a cidade onde a gente estava, dista uns quantos quilômetros que foram disputados braça a braça, enquanto o fogo da nossa artilharia conseguiu maneirar um pouco o avanço deles. Mas, como só uma “pitombada” conseguiu atingir o casco d’um deles, os dois “satanases” (vieram se chegando, avançando, se aproximando, crescendo diante da gente, até que puderam abrir fogo. Então, foi aquele “Deus nos acuda!”: cada um perseguindo o seu. O “Ingá” foi para cima do “Jaguaribe” e o “Baependy” veio nas nossas águas. Aí o pau cantou lá de bordo dos dois: as metralhadoras deles dando aquelas risadas de suinara e a gente vendo bala invadir o nosso navio assim que nem enxame de caba tapiú (espécie de vespa) quando, fica assanhado. A fuzilaria varria o nosso convés estraçalhando tudo, lascando as portas dos camarotes e enchendo o ar de estilhaços de vidro das sanefas. Nós estávamos abrigados em trincheiras de sacas de sal transbordadas do “Jaguaribe”. Ele tinha vindo de Belém carregado de sal e então a turma trouxe um bocado a bordo do “Andirá”: foi o que nos valeu um pouco, a princípio. Mas aí, as metralhadoras do inimigo foram costurando as sacas de sal; costurando, uma ova, foram foi rasgando eles e o sal se derramando e ensopando o convés em salmoura de sangue.

Eles tinham toda a facilidade de acertar em nós, depois que se aproximaram a alcance de tiro. Tinham a vantagem do tamanho, pois seus navios eram mais altos que os nossos, principalmente do que o “Andirá”, um gaiolazinha de bosta. Aí, o pau cantou mesmo de verdade e nós começamos a correr p’ra lá e p’ra cá, feito barata espantada no meio d’um galinheiro. Bala zunia que nem varejeira no cio pelos ouvidos da gente: fian... fian... B á a l a, rapaz! – Raa pa... pa... pa... pa... pa... pa – Aí eu vi quando o Sargento Sotero ficou estirado no meio do convés: uma rajada cortou ele pelo meio e eu enxerguei quando ele caiu, quase dividido em dois. S a a n g u e, seu mano! Então, eu me joguei no chão e fui me arrastando por debaixo daquela fuzilaria medonha, sentindo o ar envenenado pela fumaça de pólvora me entrando pelo goto; uma fumaceira pegajosa que o vento tinha medo de espalhar e que se entranhava nos bofes da gente, deixando na boca um gosto rançoso de azinhavre.
(Idelfonso Guimarães - Os dias recurvos)







fontes:

Anisio Jobim
Francisco Gomes
Idelfonso Guimarães
Walter Pinto de Oliveira
entre outros

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