No início do século XX,imigrantes de várias partes do mundo chegavam à Amazônia brasileira atraídos pela grande circulação de capital na região,impulsionada pela exportação da borracha. E,entre esses imigrantes estavam os árabes,ou seja,os sírio/libaneses e que também ficaram conhecidos como"turcos".No Estado do Amazonas,alguns árabes se instalaram na capital Manaus onde abriram estabelecimentos comerciais,geralmente de venda de armarinhos,ou trabalhavam de vendedores ambulantes(conhecidos como"teque-teque").Já outros foram se aventurar pelo interior do Estado trabalhando de regatão,um vendedor ambulante fluvial que enchia sua embarcação de mercadorias e se dirigia aos locais mais distantes para vender seus produtos,na beira dos rios,para seringueiros,indígenas,caboclos ribeirinhos e pequenos comerciantes.
Abdul Raman Rasac Hauache e seu irmão Abdon Raman Hauache saíram de sua terra natal,no Líbano,e chegaram ao Brasil em busca de uma nova vida em 1904.Os dois irmãos se instalaram inicialmente no Rio de Janeiro,a então capital brasileira.A CHEGADA AO AMAZONAS E O SOFRIDO TRABALHO DE REGATÃO NO INÍCIO
Porém os dois libaneses souberam que o dinheiro corria solto na Amazônia,com a possibilidade de enriquecimento para quem se aventurasse a trabalhar por aquelas paragens.Eles então decidiram tentar a sorte no Norte do Brasil, embarcando num navio no Rio de Janeiro rumo ao Amazonas,onde chegaram em 1905,ficando eles em Manaus onde começaram a trabalhar.
Mas depois os irmãos decidiram trabalhar de regatão e se aventurar pelo interior,onde compraram mercadorias e embarcaram numa embarcação rudimentar movida a remo.E foi assim,usando a força dos braços que os irmãos navegaram remando pelo rio Solimões, enfrentando correntezas,banzeiros e temporais,oferecendo,vendendo ou trocando seus produtos pela margem dos rios,e navegando de subida até chegar na cidade de Rio Branco,no Acre.Até o ano de 1925,Abdul e Abdon ainda trabalhavam no comércio de regatão.
AINDA NO TRABALHO DE REGATÃO,A SITUAÇÃO DOS IMIGRANTES COMEÇAVA A MELHORAR
Mas,a partir de 1925,a coisa mudou para eles,pois com o capital adquirido nas viagens compraram uma embarcação melhor,um batelão movido a vapor,e resolveram mudar de rota e explorar o rio Madeira.Eles então armazenavam no batelão várias mercadorias que vendiam ou trocavam como borracha,sernambí,couro de jacaré e de gato maracajá,castanha,querosene, pirarucu,balata,munição,roupas,etc.E assim foram adquirindo mais capital com a freguesia que tinham por todo rio Madeira.
Já com mais dinheiro nos bolsos,Abdon Raman e Abdul Rasac compraram uma propriedade localizada na Costa da Conceição,zona rural do município de Itacoatiara,do qual foi batizada por eles de SANTA MARIA DO RAMAN,situada na margem do rio.
A partir daí os irmãos Hauache prosperaram ainda mais pois sua localidade passou a ser sinônimo de progesso no estado.Foi ali em Santa Maria que eles instalaram a sede de sua firma chamada de "Abdon Raman & Rasac"onde ficavam seus armazéns,escritório,alojamento dos empregados e onde tinha um intenso movimento de embarque e de desembarque de mercadorias e de trabalhadores da firma,além disso o local tinha energia elétrica movida a motor de luz.Os dois irmãos passaram a ser uma espécie de "reis" da região e Santa Maria passou a ser referência, transformando o porto da cidade de Itacoatiara num dos maiores da região em movimento de mercadorias,só perdendo para o porto de Manaus,e isso devido aos irmãos libaneses e seus produtos de Santa Maria que movimentavam a economia local.
Lá em Itacoatiara aportavam grandes navios vindos do Rio de Janeiro,São Paulo,Belém e Manaus para embarcar os produtos que vinham de Santa Maria ou para vender gêneros aos donos da localidade,onde se descarregavam sacos de açúcar,café em grãos,arroz,feijão,caixas de óleo, borracha, tambores de gasolina, querosene,confecções,etc.
Abdon e Abdul,em sua propriedade Santa Maria, tornaram-se os maiores contribuintes de impostos do Amazonas naquela época,junto com demais comerciantes do estado.
O INCÊNDIO QUE DESTRUIU O NEGÓCIO COMERCIAL DOS LIBANESES - A VOLTA POR CIMA
Porém,no auge daquele processo comercial,eis que aconteceu uma tragédia inesperada: em 1938 um grande incêndio aconteceu em Santa Maria que destruiu totalmente os armazéns e mercadorias,somente se salvando as embarcações da firma que estavam atracadas no porto da localidade.
Sendo assim,os irmãos árabes perderam uma verdadeira fortuna,vendo seus esforços de tantos anos de trabalho duro se acabar e virar cinzas.
Dizem pessoas próximas a eles que,assim que acabou o incêndio,Abdul,desolado e furioso,batia na mesa de seu escritório e dizia "-Não atracava navio de grande porte em Santa Maria,mas brevemente vai atracar".
E os irmãos Hauache resolveram recomeçar novamente e,como tinham um bom crédito nas praças de Manaus e São Paulo,compraram novas mercadorias e recomeçaram nova vida.
Em Manaus eles tiveram ajuda de seus patrícios,os comerciantes libaneses,que concederam crédito aos Hauache.
Em pouco tempo,Abdul e Abdon recuperaram seu prejuízo e continuaram em Santa Maria,tornando-se eles os maiores aviadores para o interior do Amazonas,ajudando e muito a economia amazonense.
Dizem que aquilo que Abdul prometeu aconteceu: os navios de grande porte passavam agora a atracar no porto de Santa Maria.
Mas os dois irmãos acabaram desfazendo a sociedade, e Abdul resolveu vir para Manaus onde fundou um estabelecimento comercial, a "Casa Rasac",e armazéns, passando ele também a prosperar na cidade. Quanto à Abdon, continuou reinando em Santa Maria.
CONCLUSÃO
Na ilustração maior, à esquerda, está uma representação do incêndio que destruiu a localidade de Santa Maria do Raman; na imagem à direita, acima, está uma propaganda da firma dos irmãos libaneses; na ilustração abaixo está a figura de um regatão oferecendo seu produtos de venda para ribeirinhos, profissão essa que os irmãos fizeram no Amazonas por um bom tempo antes de enriquecerem.
FONTES: