
A casa Benchaya e Ezagui, fica localizada na esquina das ruas Francisco Glicério e Álvaro França, no tradicional bairro da Colônia, constitui um dos mais importantes exemplares remanescentes da arquitetura urbana do ciclo da borracha em Itacoatiara. O imóvel pertenceu à família de Orovida Benchaya e Leão Ezaguy, pais de Rubens José Ezaguy, popularmente conhecido como “Chunito”, considerado o último descendente da comunidade judaica marroquina a residir permanentemente no município, transferindo-se para Manaus na década de 1980. A presença da família Ezaguy integra a importante trajetória dos imigrantes judeus marroquinos que se estabeleceram em Itacoatiara entre o final do século XIX e as primeiras décadas do século XX, contribuindo significativamente para o desenvolvimento econômico, comercial e social da cidade.
Ao longo de sua história, o imóvel também abrigou diversas atividades comerciais que marcaram a memória urbana itacoatiarense, entre elas a garapeira do Sr. Augusto Hipólito, a empresa J. Mendes Publicidades, do artista parintinense Jair Mendes, e a tradicional Eletromotores Karim. Posteriormente, a residência pertenceu à Sra. Sinhá Arcos e ao Sr. Milton Lobão Veras. Registros de inventários patrimoniais citam o imóvel como a casa onde residiu Rubens Ezaguy, destacando sua relevância histórica para a memória da comunidade judaica local.
Arquitetonicamente, a edificação apresenta características típicas das residências urbanas construídas durante o período áureo da economia da borracha, destacando-se pelo pé-direito elevado, destinado a proporcionar melhor ventilação ao ambiente amazônico, cobertura em telhas francesas, amplas esquadrias de madeira, planta adaptada ao clima tropical e volumetria característica das construções das primeiras décadas do século XX. Sua implantação em terreno de esquina reforça a importância econômica e social que seus proprietários exerceram na dinâmica comercial do bairro da Colônia.
Além de seu valor arquitetônico, a residência representa um significativo testemunho da presença judaico-marroquina em Itacoatiara, preservando a memória de famílias que participaram ativamente da formação histórica, econômica e cultural do município. Por suas características construtivas, valor histórico e vínculos com personagens representativos da sociedade local, o imóvel constitui um relevante patrimônio cultural da cidade, merecedor de reconhecimento, preservação e valorização pelas atuais e futuras gerações.
Características arquitetônicas
A casa apresenta pé direito alto, cobertura de telhas francesas e demais características típicas das moradias urbanas construídas durante o período áureo da economia da borracha:
Planta em esquina, implantada no alinhamento da rua, sem recuos frontais, característica marcante da arquitetura urbana oitocentista.
Cobertura em quatro águas, com telhas cerâmicas do tipo capa e canal, possuindo beiral reduzido e estrutura de madeira.
Paredes de alvenaria espessa, que proporcionam conforto térmico em clima equatorial.
Fachadas simétricas, organizadas por sucessivos vãos de portas altas, elemento que favorecia ventilação cruzada e iluminação natural.
Portas de madeira de folha dupla, altas e estreitas, acompanhadas de bandeiras superiores em madeira vazada, permitindo circulação permanente do ar mesmo quando fechadas.
Vergas em arco abatido, emolduradas por tijolos aparentes, conferindo elegância e ritmo à composição da fachada.
Cunhais e molduras destacadas, executados em cantaria ou reboco imitando pedra, recurso ornamental bastante difundido na arquitetura eclética amazônica do período.
Embasamento elevado, protegendo a construção da umidade do solo, problema recorrente nas cidades amazônicas.
Ausência de ornamentação excessiva, revelando um padrão arquitetônico sóbrio, típico das residências comerciais pertencentes à burguesia mercantil do interior amazônico.
Valor histórico
Mais do que uma antiga residência, o imóvel constitui um importante testemunho material da presença da comunidade judaico-marroquina em Itacoatiara. Famílias como os Benchaya, estabelecidas na cidade por volta de 1895, participaram ativamente do comércio regional durante o ciclo da borracha, mantendo estabelecimentos comerciais na antiga Avenida Parque e residindo principalmente no bairro da Colônia, onde se concentrou significativa parcela dos imigrantes judeus.
A arquitetura da casa reflete essa prosperidade econômica: trata-se de uma construção sólida, funcional e elegante, concebida para servir simultaneamente como residência familiar e símbolo do prestígio social alcançado por seus proprietários. Embora apresente linguagem predominantemente luso-brasileira, incorpora elementos decorativos do ecletismo que se difundiu na Amazônia durante a Belle Époque da borracha, período em que os comerciantes judeus contribuíram decisivamente para o desenvolvimento econômico e urbano de cidades como Itacoatiara, Manaus e Belém.
Essa residência, portanto, possui expressivo valor histórico, arquitetônico, cultural e identitário, representando um dos remanescentes da ocupação judaico-marroquina no município e constituindo um importante patrimônio da memória urbana de Itacoatiara.
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