quinta-feira, 26 de março de 2026

OS IRMÃOS ÁRABES QUE IMIGRARAM PARA O AMAZONAS E QUE SE TORNARAM UM DOS MAIORES COMERCIANTES DO NORTE DO BRASIL,CUJO SEU PATRIMONIO FOI DEVORADO PELAS CHAMAS

No início do século XX,imigrantes de várias partes do mundo chegavam à Amazônia brasileira atraídos pela grande circulação de capital na região,impulsionada pela exportação da borracha. E,entre esses imigrantes estavam os árabes,ou seja,os sírio/libaneses e que também ficaram conhecidos como"turcos".No Estado do Amazonas,alguns árabes se instalaram na capital Manaus onde abriram estabelecimentos comerciais,geralmente de venda de armarinhos,ou trabalhavam de vendedores ambulantes(conhecidos como"teque-teque").Já outros foram se aventurar pelo interior do Estado trabalhando de regatão,um vendedor ambulante fluvial que enchia sua embarcação de mercadorias e se dirigia aos locais mais distantes para vender seus produtos,na beira dos rios,para seringueiros,indígenas,caboclos ribeirinhos e pequenos comerciantes.

Abdul Raman Rasac Hauache e seu irmão Abdon Raman Hauache saíram de sua terra natal,no Líbano,e chegaram ao Brasil em busca de uma nova vida em 1904.Os dois irmãos se instalaram inicialmente no Rio de Janeiro,a então capital brasileira.

A CHEGADA AO AMAZONAS E O SOFRIDO TRABALHO DE REGATÃO NO INÍCIO

Porém os dois libaneses souberam que o dinheiro corria solto na Amazônia,com a possibilidade de enriquecimento para quem se aventurasse a trabalhar por aquelas paragens.Eles então decidiram tentar a sorte no Norte do Brasil, embarcando num navio no Rio de Janeiro rumo ao Amazonas,onde chegaram em 1905,ficando eles em Manaus onde começaram a trabalhar.
Mas depois os irmãos decidiram trabalhar de regatão e se aventurar pelo interior,onde compraram mercadorias e embarcaram numa embarcação rudimentar movida a remo.E foi assim,usando a força dos braços que os irmãos navegaram remando pelo rio Solimões, enfrentando correntezas,banzeiros e temporais,oferecendo,vendendo ou trocando seus produtos pela margem dos rios,e navegando de subida até chegar na cidade de Rio Branco,no Acre.Até o ano de 1925,Abdul e Abdon ainda trabalhavam no comércio de regatão.

AINDA NO TRABALHO DE REGATÃO,A SITUAÇÃO DOS IMIGRANTES COMEÇAVA A MELHORAR

Mas,a partir de 1925,a coisa mudou para eles,pois com o capital adquirido nas viagens compraram uma embarcação melhor,um batelão movido a vapor,e resolveram mudar de rota e explorar o rio Madeira.Eles então armazenavam no batelão várias mercadorias que vendiam ou trocavam como borracha,sernambí,couro de jacaré e de gato maracajá,castanha,querosene, pirarucu,balata,munição,roupas,etc.E assim foram adquirindo mais capital com a freguesia que tinham por todo rio Madeira.
Já com mais dinheiro nos bolsos,Abdon Raman e Abdul Rasac compraram uma propriedade localizada na Costa da Conceição,zona rural do município de Itacoatiara,do qual foi batizada por eles de SANTA MARIA DO RAMAN,situada na margem do rio.
A partir daí os irmãos Hauache prosperaram ainda mais pois sua localidade passou a ser sinônimo de progesso no estado.Foi ali em Santa Maria que eles instalaram a sede de sua firma chamada de "Abdon Raman & Rasac"onde ficavam seus armazéns,escritório,alojamento dos empregados e onde tinha um intenso movimento de embarque e de desembarque de mercadorias e de trabalhadores da firma,além disso o local tinha energia elétrica movida a motor de luz.Os dois irmãos passaram a ser uma espécie de "reis" da região e Santa Maria passou a ser referência, transformando o porto da cidade de Itacoatiara num dos maiores da região em movimento de mercadorias,só perdendo para o porto de Manaus,e isso devido aos irmãos libaneses e seus produtos de Santa Maria que movimentavam a economia local.
Lá em Itacoatiara aportavam grandes navios vindos do Rio de Janeiro,São Paulo,Belém e Manaus para embarcar os produtos que vinham de Santa Maria ou para vender gêneros aos donos da localidade,onde se descarregavam sacos de açúcar,café em grãos,arroz,feijão,caixas de óleo, borracha, tambores de gasolina, querosene,confecções,etc.
Abdon e Abdul,em sua propriedade Santa Maria, tornaram-se os maiores contribuintes de impostos do Amazonas naquela época,junto com demais comerciantes do estado.

O INCÊNDIO QUE DESTRUIU O NEGÓCIO COMERCIAL DOS LIBANESES - A VOLTA POR CIMA

Porém,no auge daquele processo comercial,eis que aconteceu uma tragédia inesperada: em 1938 um grande incêndio aconteceu em Santa Maria que destruiu totalmente os armazéns e mercadorias,somente se salvando as embarcações da firma que estavam atracadas no porto da localidade.
Sendo assim,os irmãos árabes perderam uma verdadeira fortuna,vendo seus esforços de tantos anos de trabalho duro se acabar e virar cinzas.
Dizem pessoas próximas a eles que,assim que acabou o incêndio,Abdul,desolado e furioso,batia na mesa de seu escritório e dizia "-Não atracava navio de grande porte em Santa Maria,mas brevemente vai atracar".
E os irmãos Hauache resolveram recomeçar novamente e,como tinham um bom crédito nas praças de Manaus e São Paulo,compraram novas mercadorias e recomeçaram nova vida.
Em Manaus eles tiveram ajuda de seus patrícios,os comerciantes libaneses,que concederam crédito aos Hauache.
Em pouco tempo,Abdul e Abdon recuperaram seu prejuízo e continuaram em Santa Maria,tornando-se eles os maiores aviadores para o interior do Amazonas,ajudando e muito a economia amazonense.
Dizem que aquilo que Abdul prometeu aconteceu: os navios de grande porte passavam agora a atracar no porto de Santa Maria.
Mas os dois irmãos acabaram desfazendo a sociedade, e Abdul resolveu vir para Manaus onde fundou um estabelecimento comercial, a "Casa Rasac",e armazéns, passando ele também a prosperar na cidade. Quanto à Abdon, continuou reinando em Santa Maria.

CONCLUSÃO

Na ilustração maior, à esquerda, está uma representação do incêndio que destruiu a localidade de Santa Maria do Raman; na imagem à direita, acima, está uma propaganda da firma dos irmãos libaneses; na ilustração abaixo está a figura de um regatão oferecendo seu produtos de venda para ribeirinhos, profissão essa que os irmãos fizeram no Amazonas por um bom tempo antes de enriquecerem.


FONTES: 
livro "A colônia árabe no Amazonas",de Gaitano Antonaccio; Jornal do Commercio; tradição oral.

terça-feira, 17 de março de 2026

Cultura da arte cerâmica ancestral de Itacoatiara



A Cerâmica Miracanguera e seus mistérios!

Na margem esquerda do Rio Amazonas, entre Manaus e Itacoatiara, foram encontrados vestígios de inúmeros sítios indígenas pré-históricos. O que muitos de nós não sabemos é que ainda existem regiões ocultas situadas no interior da Amazônia e um povo, também desconhecido, que teria vivido por aquelas regiões e ainda hoje não foram totalmente desbravadas. É assim que começamos a falar sobre os Miracanguera.

Em 1870, numa de suas andanças pelo interior da Amazônia, o explorador João Barbosa Rodrigues descobriu uma grande necrópole indígena contendo uma vasta gama de peças em cerâmica de incrível perfeição, que teria sido construída por uma civilização até então desconhecida em nosso país. Utilizando a fonética usual dos índios da região, ele denominou o sítio de Miracanguera. A atenção do pesquisador foi atraída primeiramente por uma curiosa vasilha de cerâmica, propriedade de um viajante. Este informante citou tê-la adquirido de um mestiço, residente na Vila do Serpa (atual Itacoatiara), que dispunha de diversas peças, as quais teria recolhido na Várzea de Matari, situada a poucos quilômetros da vila. Barbosa Rodrigues suspeitou que poderia se tratar de um sítio arqueológico de uma cultura totalmente diferente das já identificadas na Amazônia.

Em seu interior, as vasilhas continham ossos calcinados, demonstrando que os mortos tinham sido incinerados. De fato, a grande maioria dos despojos dos miracangueras era composta de cinzas. Além das vasilhas mortuárias, o pesquisador encontrou diversas tigelas e pratos utilitários, todos de formatos elegantes e cobertos por uma fina camada de barro branco, que os arqueólogos denominam “engobe”, tão perfeito que dava ao conjunto a aparência de porcelana.

Uma parte das vasilhas apresentava curiosas decorações e pinturas em preto e vermelho. Outro detalhe que surpreendeu o pesquisador foi a variedade de formas existentes nos sítios onde escavou, destacando certas vasilhas em formas de taças de pés altos, que lembram congêneres da Grécia Clássica.

Havia peças mais elaboradas, certamente para pessoas de posição elevada dentro do grupo. A cerâmica do sítio de Micaranguera recebia um banho de tabatinga (tipo de argila com material orgânico) e eventualmente uma pintura com motivos geométricos, além da decoração plástica que destacava detalhes específicos, tais como seres humanos sentados e com as pernas representadas.

João Barbosa Rodrigues faleceu em 1909. Em 1925, o famoso antropólogo Kurt Nimuendaju tentou encontrar Miracanguera, mas a ilha já tinha desaparecido nas águas do rio Amazonas. Arqueólogos americanos também vasculharam áreas arqueológicas da Amazônia, inclusive no Equador, Peru e Guiana Francesa, no final dos anos de 1940. Como não conseguiram achar Miracanguera, “decidiram” que a descoberta do brasileiro tinha sido “apenas de um sítio da chamada ‘Tradição Policrona’ ou seja, “uma sub-tradição de agricultores andinos”. Porém, nos anos de 1960, um outro americano lançou nova interpretação para aquela cultura, concluindo que o grupo indígena de Miracanguera não era originário da região, como já dizia Barbosa Rodrigues. Tratava-se de um mistério relativo a uma civilização perdida que, talvez, não seja solucionado nas próximas décadas. Em pleno século 21, a cultura miracanguera continua oficialmente “inexistente” para as autoridades culturais do Brasil e do mundo.



FONTE: Museu Nacional

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